FLS6001 - Antropologia e Sinologia: Ressonâncias Etnográficas

Docente Responsável

Pensar a China como locus de produção etnográfica nos desafia a considerar não apenas uma civilização de longa duração, com relativa continuidade e unidade, mas também um grande território que, apesar da diversidade étnica, impõe e busca uma certa unidade harmônica que extrapola os limites nacionais e abarca uma “grande China” – cujo significados em disputa apontam tanto para uma “cultura chinesa” comum, quanto para uma matriz e horizonte civilizacional em contraste ao ocidente europeu. Todavia, como destaca François Jullien, os estudos acerca da China ainda partem de um certo desconhecimento das matrizes de tal civilização; e ainda são poucas as etnografias disponíveis que investigam a China contemporânea em diálogo com os termos propriamente chineses. Neste sentido, o curso pretende ser uma porta de entrada para pesquisas em andamento no PPGAS/USP, acompanhando o argumento de Feutchwang e Bruckermann (2016) de que pensar a China permite criações e críticas inéditas para Antropologia – apostando que o encontro desta com a Sinologia também é oportuno para pós-graduandos da FFLCH/USP como um todo. Ademais, em consonância com os interesses do projeto temático Artes e semânticas da criação e da memória (Fapesp, processo n. 2020/ 07886-8), tal disciplina se liga a problemas importantes para a antropologia em geral e para o projeto temático em particular, tais como: o problema da criação na arte chinesa; a noção de família expandida na China; civilização e memória nas manifestações culturais diaspóricas; as relações entre parentesco e socialidade como criação; o estatuto da relação entre natureza/cultura e entre humanidade/animalidade nos cosmos chinês.

Este curso pretende aproximar Antropologia e Sinologia desde uma perspectiva etnográfica, investigando, a partir de pesquisas contemporâneas acerca da China e suas diásporas, possíveis ressonâncias entre esses campos. Partindo da hipótese de que quaisquer pesquisas sobre a China se beneficiam de uma incursão no longevo campo de estudos da civilização chinesa, o curso tem como objetivo fornecer uma compreensão da Sinologia enquanto disciplina a partir de uma crítica antropológica, fomentada pelas potencialidades da China como campo etnográfico ainda pouco explorado (seguindo o argumento de Feutchwang e Bruckermann, 2016). Para isso, o curso prevê três grandes temas, que serão organizados e subdivididos conforme o planejamento a ser construído com os estudantes, a depender de seus interesses e pesquisas. Primeiro, apresentaremos a noção de cultura chinesa como zhonghua wenhua, o que nos permitirá enfrentar o que Simon Leys (2005) nomeia como o “culturalismo chinês”, que foi maturado ao longo das dinastias e constituirá o cerne da cultura letrada – porta de entrada tanto para pensarmos a sinologia como decorrente do encontro colonial com a Europa do século XVII, quanto para acessarmos as elaborações próprias sobre arte e filosofia na China. Caminhamos então para uma segunda exploração, cujo interesse é conectar a Sinologia à “saga da Antropologia na China” (Guldin, 2015), acompanhando as primeiras etnografias produzidas no início do século XX e as transformações políticas que a partir daí condicionam as possibilidades de produção antropológica desde o território chinês. O terceiro tema, que corta transversalmente o curso, é conhecer e aproximar a produção da “Nova Sinologia” às etnografias contemporâneas, com destaque para as recentes produções em língua portuguesa.

Créditos
8
Carga Horária
120hrs
Disciplina optativa