Profª. Dra. Sylvia Caiuby Novaes
Ministrante: Dr. João Kelmer Caldeira de Andrada
O que acontece com a antropologia e seu objeto quando o passado, o presente e o futuro deixam de ser pano de fundo e passam ao centro das análises? Este curso busca responder a essa pergunta propondo um panorama das questões que emergem quando a antropologia faz do tempo um objeto explícito de reflexão, tanto como dimensão das ferramentas analíticas da disciplina quanto como aspecto constitutivo dos mundos vividos que ela toma por objeto. Concentrando-se sobretudo na literatura produzida a partir dos anos 1980, e com base em exemplos etnográficos que vão do Pacífico à Amazônia, da China ao Sudeste Asiático, o objetivo é delinear um quadro amplo de como noções como historicidade, memória, evento, nostalgia, mudança cultural, agência e relação têm sido mobilizadas (e problematizadas) na antropologia contemporânea a partir de diferentes modelos de tempo. O curso tem, por um lado, um caráter introdutório, voltado a estudantes sem familiaridade prévia com esses debates; por outro, busca ser também exploratório, convidando os participantes a traçar, em conjunto, um mapeamento dos distintos estilos e das ferramentas que a antropologia lança mão para trazer o tempo ao primeiro plano.
Como observou Nancy Munn (1992) em um texto hoje clássico, a dimensão temporal do objeto da antropologia possui um duplo caráter: por um lado, está em toda parte e, portanto, é inescapável; por outro, justamente por essa ubiquidade, revela-se altamente elusiva e raramente se torna um objeto explícito de análise. Refletir ativamente sobre as maneiras pelas quais a relação entre passado, presente e futuro é construída — tanto por nossos interlocutores quanto em nossos próprios modelos analíticos — é, assim, um exercício altamente produtivo. O curso, nesse sentido, busca oferecer um repertório analítico capaz de dialogar com os mais diversos interesses de pesquisa, ao mesmo tempo em que contribui para consolidar e aprofundar a formação teórica dos alunos.