Prof. Renato Sztutman
Prof. Paul Sébastien Jacques Fabié
Os estudos sobre as plantations têm suas raízes no Caribe e no sul dos Estados Unidos, onde esse sistema colonial racializado forjou paisagens, corpos e modos de habitar a terra intrinsecamente ligados à escravidão. Mas a plantation não é apenas um fenômeno histórico localizado: ela se atualiza e se reconfigura em contextos diversos — no Brasil (Amazônia e Cerrado), no Sudeste Asiático, etc. — assumindo formas locais específicas que desafiam e enriquecem o conceito. A sociologia do agronegócio permite apreender as formações políticas, econômicas e sociais que estruturam esses sistemas, enquanto os STS permitem analisar como um sistema a priori universalizável se confronta com as singularidades dos meios locais, negocia com elas, se adapta, e produz assim formas sempre situadas de monocultura. Como projeto de produção em escalas crescentes, esses sistemas de monocultura são fundados numa lógica de domínio e controle de paisagens, humanos e não-humanos, orientada pela eficiência, pela padronização e por um regime temporal que arranca e transplanta — literalmente e figurativamente — tanto plantas quanto pessoas.
Trata-se, então, de observar e analisar como um sistema se atualiza sempre localmente, enrolando diferentes formas de vida em seu rastro e reconduzindo violências estruturais. Trata-se igualmente de questionar a ideia de que as práticas agroecológicas deteriam o monopólio das relações de cuidado com os seres vivos. Examinar que tipos de relações com os não-humanos são efetivamente praticados nas agriculturas industriais permite não apenas distingui-las de outras formas agrícolas, mas produzir uma análise mais precisa e menos normativa desses sistemas.
Este curso propõe uma abordagem teórica e metodológica dos sistemas de plantation. Do ponto de vista teórico, retoma as contribuições recentes sobre o Plantationoceno e articula-as com uma sociologia do agronegócio e com os estudos de ciência e tecnologia (STS). Do ponto de vista metodológico, familiariza os estudantes com pesquisas etnográficas em contextos marcados pela expansão agroindustrial, prestando atenção às relações de raça, gênero e classe que estruturam politicamente esse sistema. O curso busca ainda oferecer um olhar complexo sobre as dinâmicas agroindustriais, atento às relações multiespecíficas e práticas concretas que moldam essas agriculturas — de modo a melhor compreendê-las e descrevê-las, e a apreender com fineza o que as distingue de outras práticas agrícolas.