Prof. Vagner Gonçalves da Silva
Prof. José Ronaldo Trindade
A teoria queer constituiu um dos mais importantes campos de renovação dos estudos contemporâneos sobre gênero e sexualidade ao questionar a naturalização das identidades e dos regimes normativos que organizam os corpos e os desejos. Contudo, suas formulações iniciais foram produzidas principalmente no contexto euro-americano, o que tem suscitado críticas de autoras e autores que apontam a necessidade de considerar as relações entre sexualidade, raça, colonialidade, diáspora e outras formas de produção da pessoa.
As religiões afro-brasileiras apresentam-se como um campo privilegiado para esse deslocamento crítico. Desde os estudos pioneiros de Ruth Landes e Édison Carneiro, passando pelas pesquisas sobre homossexualidade, possessão e experiências de gênero nos terreiros, a antropologia tem demonstrado a complexidade dessas tradições religiosas na elaboração de outros modos de pensar corpo, agência, ancestralidade e diferença. A proposta de “terreirizar o queer” não consiste em aplicar uma teoria produzida no Norte Global a realidades afro-brasileiras, mas em promover uma transformação epistemológica da própria teoria queer a partir dos saberes, ontologias e cosmologias afro-atlânticas, reconhecendo os terreiros como espaços legítimos de produção de teoria e conhecimento.
A disciplina tem por objetivo examinar criticamente as relações entre teoria queer, pensamento decolonial e religiosidades afro-brasileiras, tomando os terreiros como espaços de produção de conhecimento, subjetivação e resistência. A partir da genealogia da teoria queer e das críticas interseccionais, antirracistas e decoloniais, o curso analisa os limites das formulações euro-americanas para a compreensão das experiências de gênero e sexualidade no Sul Global, dialogando com a antropologia das religiões afro-brasileiras e com as contribuições das cosmologias afro-atlânticas. Como horizonte analítico, propõe-se investigar as possibilidades teóricas e políticas de “terreirizar o queer”, compreendendo os saberes de terreiro como capazes de deslocar os próprios fundamentos epistemológicos da teoria queer.