Profª. Silvana de Souza Nascimento
Profª. Bruna Mantese de Souza
Os estudos da materialidade em Antropologia se debruçaram inicialmente sobre a assim chamada cultura material de povos autóctones, colonizados e marginalizados nos interstícios do nascimento colonial da nossa disciplina, ou seja, sobre um determinado inventário de objetos resultantes da ação de transformação intencional e engenharial dos seres humanos sobre matéria prima inanimada num determinado contexto cultural. Em outro momento, correntes da assim chamada Antropologia marxista aplicaram conceitos relativos ao materialismo dialético para entender as relações entre modos de produção e dimensões infraestruturais e a dimensão simbólica de grupos sociais. Nenhuma dessas abordagens, no entanto, pareceu alargar entendimentos para além de uma dicotomia corpo e mente (que estava para natureza e cultura) características dos pensamentos modernos e iluministas fundantes do humanismo euroestadounidense.
É Marcel Mauss que inaugura uma linhagem de pesquisas sobre corpo e pessoa que nos permite indagar o que de pessoa existe no corpo e o que de corpo existe em pessoa, borrando o cartesianismo da oposição. A chamada virada ontológica vai alargar ainda mais essa complexificação trazendo intencionalidades outras-que-humanas para figurar entre os estudos da materialidade. Já os estudos do pós-humanismo vão contribuir com o descolamento do entendimento de corpo como análogo a um suporte orgânico determinado por saberes biomédicos.
Contudo, os marcadores sociais da diferença não tiveram tanta atenção investigativa para pensar essas problemáticas e colaborar nas concepções sobre materialidade e corporeidade. Por outro lado, estudos conduzidos nos âmbitos dos feminismos, das novas transepistemologias, da decolonialidade e do pensamento negro radical tem contribuído para o entendimento de relações de assimetria de poder constitutivas quer seja de contextos locais quer seja de contextos globais. Nos interessa nesse curso, portanto, interseccionar esses estudos com recentes contribuições da Antropologia das materialidades buscando contribuir para uma reflexão teórico-metodológica que fortaleça pesquisas sobre corporeidades dissidentes, desobedientes e em fuga.
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