Disciplinas oferecidas no semestre

Docente Responsável:

Prof. Dr. Renato Sztutman

Carga Horária:120h
Créditos:8

1) Sobre a relação entre teoria e etnografia; 2) Antropologia, cognitivismo e ciências da percepção; 3) Antropologia e História; 3) Crítica pós-moderna e pós-colonial; 4) Antropologia Simétrica e “virada ontológica”; 5) Antropologias colaborativas e antropologias indígenas.

Lançaremos foco sobre três conjuntos de questões, a saber: 1) Em que sentido uma teoria antropológica é possível? Como conceitualizar a relação entre teoria nativa e teoria antropológica? O que dizer sobre a articulação entre teoria e etnografia? 2) O que fazer com dicotomias que fundaram a disciplina – como sujeito e objeto (do conhecimento e da ação), indivíduo e sociedade, natureza e cultura –, e que hoje se apresentam insuficientes e falhas, como revelam diferentes críticas etnográficas e epistemológicas? 3) Quais os desafios de uma “auto-antropologia”? O conceito de alteridade é mesmo constitutivo da prática antropológica? Quais as contribuições das novas antropologias feitas por indígenas para esse debate? O que seria uma antropologia colaborativa? Não se trata aqui, evidentemente, de buscar responder a estas questões por demais amplas, mas sim de examiná-las, desdobrá-las e situá-las em diferentes debates contemporâneos. Não se trata tampouco de realizar um panorama completo da produção teórica destas últimas quatro décadas, mas sim de selecionar algumas reflexões significativas e localizadas, capazes de articular problemas advindos de diferentes regiões da prática e do pensamento antropológicos.

Docente Responsável:

Prof. Dr. Pedro de Niemeyer Cesarino

Carga Horária:120h
Créditos:8

O curso tem como objetivo pensar as contaminações entre antropologia e literatura de ficção. Trata-se de refletir, fundamentalmente, sobre os modos como esses saberes (antropológico e literário) e alguns de seus praticantes ensaiaram encontros e experimentaram transferências diversas, que terminaram por conformar suas práticas e produções. O curso visa fornecer uma reflexão sobre certos modos de pensar e escrever antropologia e literatura ao longo da história de formação da disciplina e da literatura ocidental moderna. As aulas serão dedicadas à leitura e estudo tanto de obras antropológicas quanto literárias, tendo em vista a análise de problemas conceituais transversais às duas formas de produção de conhecimento. Busca-se, assim, estabelecer reflexões sobre questões diversas tais como o estatuto da autoria e os regimes de criatividade, o problema da equivocidade, o pressuposto da ficção e da virtualização, a variação ontológica e epistemológica, a consolidação de gêneros literários e sua relação com gêneros textuais ou orais em perspectiva transcultural, as políticas de apropriação, circulação, tradução, invenção e transformação criativas e os agenciamentos enunciativos.

Docente Responsável:

Responsável:
Profª. Dra.Paula Montero
Ministrante:
Dr. Guilherme Borges Ferreira Costa

Carga Horária:60h
Créditos:4

Busca-se, com esta disciplina, examinar abordagens anglo-saxãs a respeito do gerenciamento da diversidade religiosa. O objetivo, mais especificamente, é avaliar a aplicabilidade dessas abordagens quando o que está em jogo é a investigação de contextos sociais brasileiros. Para que assim possa ser feito, o olhar se dirige às possibilidades analíticas derivadas do conceito de igualdade profunda, que foi formulado por Lori G. Beaman para observar práticas cotidianas de convivência que transcendem determinações jurídico-políticas. Essas práticas – também chamadas de “não-eventos” – se caracterizam por passar ao largo das normatividades que regulam de maneira oficial e legal o convívio inter-religioso.

Docente Responsável:

Prof. Vitor Henrique Pinto Ido
Profª. Maria Luísa de Souza Lucas

Carga Horária:120h
Créditos:8

Ao longo do tempo, a relação entre a Etnologia e o Direito tem sido entendida como puramente instrumental. De um lado, a Etnologia (ou, numa definição convencional, o estudo comparativo de diferentes sociedades) é acionada para “descentralizar” ou “descolonizar” o pensamento jurídico, conferindo-lhe mais nuances e menos rigidez. Ademais, proliferam as demandas sobre o reconhecimento da personalidade jurídica ou, ao menos, do status de sujeito de direitos de seres não-humanos, como montanhas e rios. Em sentido semelhante, a crescente onipresença da inteligência artificial confronta os sistemas jurídicos com seu caráter humano-cêntrico.

Por outro lado, o Direito é comumente entendido pela Etnologia como um mero instrumento formal. Como uma técnica a ser aplicada, o Direito emerge especialmente nas ocasiões em que etnólogas e etnólogos se veem como mediadores ou tradutores em processos que envolvem, por exemplo, licenciamentos ambientais e consultas livres, prévias e informadas às comunidades, disputas fundiárias, restituição de bens culturais e demandas de proteção de conhecimentos tradicionais em pedidos de patentes ou de salvaguarda de patrimônios tangíveis e intangíveis. Os mesmos temas atravessam a prática de arqueólogas e arqueólogos, que enfrentam ainda as implicações jurídicas envolvidas na gestão de acervos arqueológicos, de patrimônio genético e de restos humanos relacionados, em maior ou menor grau, com comunidades do presente.

Em comum, as três disciplinas (Direito, Antropologia e Arqueologia) têm, no centro de suas práticas e reflexões, a questão da comparação. Contudo, em cada caso o tema aparece de forma muito distinta – produzindo, assim, efeitos igualmente díspares.

Na concepção mais ortodoxa do Direito Comparado, explicitado pelo modelo funcionalista alemão de Zweigert & Kötz, sistemas jurídicos de tradições e históricos distintos podem ser comparados, a despeito de suas diferenças, a partir de suas funções – entendidas, aqui, não a partir de uma avaliação exclusivamente normativa, mas das funções desempenhadas nas respectivas sociedades. Em outras palavras, admite-se que é possível (ou mesmo desejável) encontrar um mínimo denominador comum entre diferentes regimes jurídicos, de modo a produzir leis que contemplem, em suas formulações, o maior número possível de casos. No caso da Antropologia e da Arqueologia, interessa a produção de dados que documentam as diferentes maneiras existentes de fabricar mundos tangíveis e intangíveis no presente e ao longo do tempo. As análises destes dados, não raro, envolvem a comparação posterior entre essas distintas fabricações e suas consequências. Assim, comparam-se, por exemplo, diferentes narrativas de origem, terminologias de parentesco ou tecnologias de fabricação de artefatos e paisagens, trazendo à tona seus pontos de convergência e de divergência.

Metodologicamente, porém, a teoria do Direito da segunda metade do século XX em diante lidou com a crítica à concepção positivista do Direito como conjunto de normas (contra o qual existiria a “realidade”) e, igualmente, com sua principal alternativa simétrica: a de um Direito que surge e é conformado pela realidade. Isto também se aplicou a teorias críticas sobre a ideia de comparação no Direito, que questionaram a busca por categorias gerais e refletiram se o papel da disciplina não deveria ser, ao contrário, desnudar o quanto a mesma nunca havia sido neutra ou universal. A antropologia, por seu turno, também se vê diante de um equilíbrio delicado.

Se, por um lado, a comparação constitui um procedimento central para a disciplina desde seu surgimento, por outro, a própria possibilidade de traduzir distintos conceitos, categorias e modos de existência em termos mutuamente inteligíveis passou a ser questionada. Por exemplo, os recentes debates ligados à chamada “virada ontológica” reconfiguram os limites da comparação: afinal, ontologias distintas seriam efetivamente comparáveis? Em outras palavras, a comparação pressuporia (ou não) um terreno comum que, inevitavelmente, reduziria ou neutralizaria essas diferenças e, no limite, limitaria a própria prática antropológica (Viveiros de Castro, 2015; Graeber, 2015; Candea, 2018)? Os problemas conceituais e políticos explorados ao longo deste curso se situam precisamente nesse terreno instável entre tradução e incomensurabilidade, entre universalização e diferença. Nossa intenção, em suma, é confrontar, a partir de alguns temas clássicos para o Direito e a Etnologia, a delicada movimentação do particular ao geral, do geral ao particular (ou, se quisermos, do individual ao coletivo, e vice-versa) que atravessa diretamente ambas as disciplinas. Alguns temas e perguntas servirão como gatilho para o debate.

Docente Responsável:

Prof. Renato Sztutman
Prof. Paul Sébastien Jacques Fabié

Carga Horária:60h
Créditos:4

Os estudos sobre as plantations têm suas raízes no Caribe e no sul dos Estados Unidos, onde esse sistema colonial racializado forjou paisagens, corpos e modos de habitar a terra intrinsecamente ligados à escravidão. Mas a plantation não é apenas um fenômeno histórico localizado: ela se atualiza e se reconfigura em contextos diversos — no Brasil (Amazônia e Cerrado), no Sudeste Asiático, etc. — assumindo formas locais específicas que desafiam e enriquecem o conceito. A sociologia do agronegócio permite apreender as formações políticas, econômicas e sociais que estruturam esses sistemas, enquanto os STS permitem analisar como um sistema a priori universalizável se confronta com as singularidades dos meios locais, negocia com elas, se adapta, e produz assim formas sempre situadas de monocultura. Como projeto de produção em escalas crescentes, esses sistemas de monocultura são fundados numa lógica de domínio e controle de paisagens, humanos e não-humanos, orientada pela eficiência, pela padronização e por um regime temporal que arranca e transplanta — literalmente e figurativamente — tanto plantas quanto pessoas.

Trata-se, então, de observar e analisar como um sistema se atualiza sempre localmente, enrolando diferentes formas de vida em seu rastro e reconduzindo violências estruturais. Trata-se igualmente de questionar a ideia de que as práticas agroecológicas deteriam o monopólio das relações de cuidado com os seres vivos. Examinar que tipos de relações com os não-humanos são efetivamente praticados nas agriculturas industriais permite não apenas distingui-las de outras formas agrícolas, mas produzir uma análise mais precisa e menos normativa desses sistemas.

Este curso propõe uma abordagem teórica e metodológica dos sistemas de plantation. Do ponto de vista teórico, retoma as contribuições recentes sobre o Plantationoceno e articula-as com uma sociologia do agronegócio e com os estudos de ciência e tecnologia (STS). Do ponto de vista metodológico, familiariza os estudantes com pesquisas etnográficas em contextos marcados pela expansão agroindustrial, prestando atenção às relações de raça, gênero e classe que estruturam politicamente esse sistema. O curso busca ainda oferecer um olhar complexo sobre as dinâmicas agroindustriais, atento às relações multiespecíficas e práticas concretas que moldam essas agriculturas — de modo a melhor compreendê-las e descrevê-las, e a apreender com fineza o que as distingue de outras práticas agrícolas.

Docente Responsável:

Prof. Vagner Gonçalves da Silva
Prof. José Ronaldo Trindade

Carga Horária:120h
Créditos:8

A teoria queer constituiu um dos mais importantes campos de renovação dos estudos contemporâneos sobre gênero e sexualidade ao questionar a naturalização das identidades e dos regimes normativos que organizam os corpos e os desejos. Contudo, suas formulações iniciais foram produzidas principalmente no contexto euro-americano, o que tem suscitado críticas de autoras e autores que apontam a necessidade de considerar as relações entre sexualidade, raça, colonialidade, diáspora e outras formas de produção da pessoa.

As religiões afro-brasileiras apresentam-se como um campo privilegiado para esse deslocamento crítico. Desde os estudos pioneiros de Ruth Landes e Édison Carneiro, passando pelas pesquisas sobre homossexualidade, possessão e experiências de gênero nos terreiros, a antropologia tem demonstrado a complexidade dessas tradições religiosas na elaboração de outros modos de pensar corpo, agência, ancestralidade e diferença. A proposta de “terreirizar o queer” não consiste em aplicar uma teoria produzida no Norte Global a realidades afro-brasileiras, mas em promover uma transformação epistemológica da própria teoria queer a partir dos saberes, ontologias e cosmologias afro-atlânticas, reconhecendo os terreiros como espaços legítimos de produção de teoria e conhecimento.

A disciplina tem por objetivo examinar criticamente as relações entre teoria queer, pensamento decolonial e religiosidades afro-brasileiras, tomando os terreiros como espaços de produção de conhecimento, subjetivação e resistência. A partir da genealogia da teoria queer e das críticas interseccionais, antirracistas e decoloniais, o curso analisa os limites das formulações euro-americanas para a compreensão das experiências de gênero e sexualidade no Sul Global, dialogando com a antropologia das religiões afro-brasileiras e com as contribuições das cosmologias afro-atlânticas. Como horizonte analítico, propõe-se investigar as possibilidades teóricas e políticas de “terreirizar o queer”, compreendendo os saberes de terreiro como capazes de deslocar os próprios fundamentos epistemológicos da teoria queer.

Docente Responsável:

Profª. Silvana de Souza Nascimento
Profª. Bruna Mantese de Souza

Carga Horária:120h
Créditos:8

Os estudos da materialidade em Antropologia se debruçaram inicialmente sobre a assim chamada cultura material de povos autóctones, colonizados e marginalizados nos interstícios do nascimento colonial da nossa disciplina, ou seja, sobre um determinado inventário de objetos resultantes da ação de transformação intencional e engenharial dos seres humanos sobre matéria prima inanimada num determinado contexto cultural. Em outro momento, correntes da assim chamada Antropologia marxista aplicaram conceitos relativos ao materialismo dialético para entender as relações entre modos de produção e dimensões infraestruturais e a dimensão simbólica de grupos sociais. Nenhuma dessas abordagens, no entanto, pareceu alargar entendimentos para além de uma dicotomia corpo e mente (que estava para natureza e cultura) características dos pensamentos modernos e iluministas fundantes do humanismo euroestadounidense.

É Marcel Mauss que inaugura uma linhagem de pesquisas sobre corpo e pessoa que nos permite indagar o que de pessoa existe no corpo e o que de corpo existe em pessoa, borrando o cartesianismo da oposição. A chamada virada ontológica vai alargar ainda mais essa complexificação trazendo intencionalidades outras-que-humanas para figurar entre os estudos da materialidade. Já os estudos do pós-humanismo vão contribuir com o descolamento do entendimento de corpo como análogo a um suporte orgânico determinado por saberes biomédicos.

Contudo, os marcadores sociais da diferença não tiveram tanta atenção investigativa para pensar essas problemáticas e colaborar nas concepções sobre materialidade e corporeidade. Por outro lado, estudos conduzidos nos âmbitos dos feminismos, das novas transepistemologias, da decolonialidade e do pensamento negro radical tem contribuído para o entendimento de relações de assimetria de poder constitutivas quer seja de contextos locais quer seja de contextos globais. Nos interessa nesse curso, portanto, interseccionar esses estudos com recentes contribuições da Antropologia das materialidades buscando contribuir para uma reflexão teórico-metodológica que fortaleça pesquisas sobre corporeidades dissidentes, desobedientes e em fuga.

Conteúdo:

Docente Responsável:

Prof. Guilherme Moura Fagundes

Carga Horária:120h
Créditos:8

Como situar a antropologia nos estudos de ciência e da modernidade? Vice-versa, como situar as ciências naturais nos estudos das ciências sociais com ênfase em antropologia? Como considerar o candente dilema moderno e antropológico a respeito do que seja o dado e o construído quando se desconfia do caráter sempre intransitivo ou prematuramente purificado dos dualismos Natureza/Sociedade e Ciência/Política? Face aos impactos ontológicos e epistemológicos da abordagem contemporânea e inovadora dos Science Studies, como repor a noção de cultura e sociedade (vinda das chamadas soft sciences) em contraste à noção de ciência e natureza (vinda das chamadas hard sciencies)? Qual o rendimento de uma antropologia da ciência e da tecnologia na compreensão da modernidade e do Brasil? Trata-se de fugir a um só tempo tanto da redução sociológica quanto da redução naturalista, esses dois atratores do pensamento moderno. Assim, o desafio passa centralmente pela adoção crítica do “princípio de irredução” (Stengers, Latour) em favor da descrição de redes de humanos e não humanos que participam das composições do real, da agregação de heterogêneos. O curso almeja experimentar inversões e abalos decisivos nos nossos hábitos de pensamento (incluindo impactos na metafísica e na ontologia) a partir das inovações teóricas (como sobretudo vindas dos chamados Science Studies) e de achados etnográficos.

O enfrentamento de problemas socioambientais incontornáveis exige reflexões profundas e rigorosas de uma antropologia dos modernos – que não deve se confundir, menos ainda ponto a ponto, com uma antropologia contra os modernos. Os descalabros socioambientais contemporâneos, com derivações políticas mais que alarmantes, põem a tarefa urgente de renovar reflexões que tornem mais justas e realistas as compreensões sobre os modernos (e suas relação com os chamados outros e também com a natureza), bem como na orientação de tomadas de decisão. Tal enseja uma reeducação da atenção, da sensibilidade e do conhecimento em benefício do cultivo de uma arte das consequências.

Docente Responsável:

Prof. Pedro Lopes
Profª. Anna Paula Vencato

Carga Horária:120h

A disciplina propõe um mergulho em temas relativos à deficiência e aos estudos da deficiência – área atualmente em expansão no Brasil. Embora centrada nas produções do campo antropológico, a disciplina é aberta a estudantes de diversas áreas e com interesse na reflexão e pesquisa com deficiência.

A proposta desta disciplina é apresentar a estudantes os debates antropológicos sobre deficiência, a partir da noção de diferença. O enquadramento da deficiência como variação social articula-se historicamente a modulações de certa forma análogas em termos de gênero, raça, sexualidade, classe. A disciplina propõe uma primeira aproximação dessas questões, a partir quatro unidades ou conjuntos de problemas: (1) As histórias de formação dos estudos da deficiência, com foco em sua emergência conectada ao “modelo social da deficiência” e movimentos pelos direitos de pessoas com deficiência. (2) Desdobramentos e atualizações dos estudos da deficiência a partir da “teoria crip” ou “teoria aleijada” e da noção de “debility” ou “debilidade”, com foco nas ambivalências e fissuras colocadas pela problematização da corponormatividade, inclusive para a própria antropologia. (3) Reflexões sobre os sentidos e as experiências vividas por nossos corpos, particularmente em função de suas transformações pelo enfrentamento – compartilhado – do tempo e do espaço, ou seja, com foco nas relações de mutualidade que oferecem risco e prazer, cuidado e perigo para nossa constituição como pessoas e sujeitos. (4) Produções autoradas por e com pessoas com deficiência no campo antropológico e artístico que tomam a experiência da deficiência como elemento constitutivamente metodológico, heurístico e/ou epistemológico.