Disciplinas oferecidas no semestre

Docente Responsável:

Profa. Dra. Ana Claudia Duarte Rocha Marques

Carga Horária:120h
Créditos:8

O curso visa oferecer um espaço de reflexão ampliado sobre as artes da pesquisa antropológica, seus desafios e derivas, a partir dos projetos e experiências de investigação dos alunos, de modo a auxiliá-los, pela discussão integrada e comparada, em seus respectivos trabalhos. O objetivo central é realizar uma reflexão detida sobre procedimentos, recortes e escolhas analíticas, com o auxílio da troca de experiências entre pesquisadores provenientes de diferentes campos e subespecialidades no interior da Antropologia. A discussão coletiva se beneficiará da intervenção de um debatedor, previamente escolhido, e dos comentários dos demais alunos e da professora. Esse debatedor será um outro aluno do curso e, se for do interesse do aluno, um convidado externo poderá também participar da sessão de discussão de seu projeto. Indicações bibliográficas serão feitas ao longo do curso, em função das questões colocadas pelos projetos e de dois nortes centrais que orientam a disciplina: 1. a variedade de formas e feitios da pesquisa antropológica e 2. a inseparabilidade entre teoria e método.

Docente Responsável:

Profa. Dra. Laura Moutinho

Carga Horária:120h
Créditos:8

A disciplina tem por objetivo principal a discussão e aprimoramento do projetos de pesquisa dos alunos ingressantes no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Além de examinar o conteúdo e a forma dos projetos, o curso busca fornecer aos alunos um treinamento em discussão acadêmica com colegas de diversas subáreas da antropologia.

Docente Responsável:

Profa. Dra. Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer

Carga Horária:120h
Créditos:8

A disciplina visa apresentar os contornos do surgimento e do desenvolvimento da antropologia do direito, em alguns países, com ênfase e aprofundamento em propostas que vêm constituindo, desde o final dos anos 1970, a antropologia do direito no Brasil, caracterizada por estreitos diálogos com estudos de gênero, estudos de outros marcadores sociais da diferença, da antropologia da política e dos direitos humanos.

Docente Responsável:

Profa. Dra. Ana Claudia Duarte Rocha Marques

Carga Horária:8h
Créditos:8

O curso se propõe a oferecer um apanhado geral das teorias clássicas, cobrindo uma bibliografia considerada indispensável para a formação de profissionais em antropologia. Ainda que o (discutível) rótulo “teorias clássicas” abrigue um amplo leque de autores, temas e problemas - além de largo espectro cronológico -, trata-se de privilegiar alguns trajetos e tradições, comparando-os.

Docente Responsável:

Profa. Dra. Laura Moutinho

Carga Horária:120h
Créditos:8

O evolucionismo e o etnocentrismo são lidos como o “outro” do pensamento antropológico. Evitar juízos de valor em sua prática é o desafio que a antropologia coloca aos seus profissionais. Na história da disciplina há um evidente desconforto com a moral, tema sobre o qual a filosofia se debruça desde seus primórdios. Neste sentido, durante o processo de constituição do que denominamos de antropologia moderna, a moral - e também as emoções - foram tratadas como terrenos movediços que poderiam conduzir para dimensões normativas ou de menor importância, já que moral poderia ser subsumida no social e na cultural, não necessitando assim de estudos específicos. No caso das emoções, a evitação é ainda mais pronunciada por terem sido deslocadas para a ordem da intimidade e do privado. Esta disciplina tem por objetivo colocar a moral e a ética sob o escrutínio do pensamento antropológico e interpelar, muito especialmente, os sentimentos morais no campo político em articulação com marcadores sociais da diferença na forma como operam a desigualdade e instituem sujeitos políticos e coletividades. Serão percorridos manuscritos clássicos e etnografias contemporâneas que abordem o tema.

Docente Responsável:

Profª Drª. Paula Montero
Profª Drª.Morgane Laure Reina

Carga Horária:120h
Créditos:8

O entrelaçamento entre religião e raça constitui um dos eixos centrais da formação social brasileira, ainda que por muito tempo tenha sido tratado de forma marginal pelas ciências sociais. A disciplina busca problematizar como discursos religiosos legitimaram a escravidão e a mestiçagem, como religiões afro-brasileiras e indígenas foram perseguidas ou marginalizadas, e como, no período recente, emergiram novas formas de reconhecimento, resistência e atuação política. Ao integrar perspectivas históricas e etnográficas, pretende-se oferecer ferramentas para compreender tanto as hierarquias produzidas pelo racismo religioso quanto os modos pelos quais diferentes tradições constroem identidades, práticas de convivência e projetos de igualdade no Brasil contemporâneo.

Busca-se, com esta disciplina, analisar as articulações entre religião e raça na formação e transformação da sociedade brasileira. O objetivo, mais especificamente, é compreender como discursos religiosos legitimaram estruturas hierárquicas, como diferentes tradições se articularam em processos de sincretismo, repressão e resistência, e de que modo tais dinâmicas se reconfiguram no século XX e no presente. Pretende-se, assim, oferecer aos discentes ferramentas para refletir criticamente sobre as desigualdades produzidas pelo racismo e o racismo religioso e sobre as possibilidades de reconhecimento, convivência e atuação política das religiões no Brasil contemporâneo.

Docente Responsável:

Profª. Dra. Paula Montero
Ministrante: Dr. Adriano Santos Godoy

Carga Horária:60h
Créditos:4

O entrelaçamento entre religiosidades e questões ambientais têm ganhado crescente atenção nas ciências sociais, especialmente em contextos marcados por conflitos territoriais, destruição ambiental e disputas por futuros possíveis. No Brasil, onde a diversidade religiosa é acompanhada por intensas desigualdades sociais, múltiplos atores religiosos — de comunidades afro-brasileiras e indígenas a coletivos evangélicos e católicos — têm desempenhado papeis decisivos em lutas por terra, água, floresta, memória e justiça.
Esta disciplina parte da antropologia da religião em diálogo com os debates sobre ambientalismo para examinar as maneiras pelas quais diferentes práticas religiosas mobilizam saberes, rituais e afetos ecológicos. Serão abordadas tanto formas de espiritualização e imaginação da natureza quanto conflitos socioambientais envolvendo coletivos religiosos que ora apoiam, negam ou ignoram as lutas contra a crise climática.
A disciplina visa dar visibilidade à dimensão política das religiões nas disputas dos ambientalismos contemporâneos, contribuindo para uma reflexão crítica sobre os limites de certas categorias, incluindo a ecologia, em uma abordagem antropológica que leva em consideração também as particularidades do campo religioso brasileiro.

Docente Responsável:

Profª. Dra. Carolina Parreiras

Carga Horária:120h
Créditos:8

Os estudos de plataforma formam hoje um campo que se consolidou nos últimos anos e que trazem importantes contribuições para a antropologia digital, especialmente por seu viés crítico. Ao se ancorar nele, este curso quer propor uma leitura crítica das plataformas digitais e da forma como elas são desenvolvidas e utilizadas continuamente por todas nós, mostrando as lógicas não apenas extrativistas (de dados), mas coloniais, racistas, discriminatórias e vigilantistas. Além disso, é urgente debater as implicações do desenvolvimento e uso de inteligência artificial, em um momento em que elas se tornam tão populares e tão utilizadas. Por esses motivos, cabem reflexões nos âmbitos teórico, metodológico e ético, pensando em como as plataformas e as IAs se conformam como campos de disputadas políticas, éticas, sociais, estatais e de regulação.

O objetivo deste curso é promover a discussão sobre temas contemporâneos no campo da antropologia digital, com foco especial nas plataformas digitais, nas políticas de dados e em inteligência artificial. Neste sentido, propõe pensar criticamente nos modos como as tecnologias digitais têm sido desenvolvidas e utilizadas, pensando no lugar ocupado pelas chamadas big techs e de suas plataformas na vida cotidiana de todas nós. Processos como a plataformização, racismo algorítmico, colonialismo digital e a datificação serão abordados, mostrando seus vários desdobramentos práticos, mas também buscando a reflexão coletiva de alternativas a estes modelos. Por fim, frente à popularidade especialmente das Ias generativas, o curso pretende debater as implicações éticas, políticas, ambientais e sociais do desenvolvimento e adoção de IAs. O curso também irá trazer debates sobre metodologia e ética de pesquisa relacionados aos temas citados, com interesse especial na leitura de etnografias.

 

Docente Responsável:

Profª. Dra. Fernanda Arêas Peixoto
Ministrante: Dr. Gabriel Guarino Sant'Anna Lima de Almeida

Carga Horária:120h
Créditos:8

Pensar a China como locus de produção etnográfica nos desafia a considerar não apenas uma civilização de longa duração, com relativa continuidade e unidade, mas também um grande território que, apesar da diversidade étnica, impõe e busca uma certa unidade harmônica que extrapola os limites nacionais e abarca uma “grande China” – cujo significados em disputa apontam tanto para uma “cultura chinesa” comum, quanto para uma matriz e horizonte civilizacional em contraste ao ocidente europeu. Todavia, como destaca François Jullien, os estudos acerca da China ainda partem de um certo desconhecimento das matrizes de tal civilização; e ainda são poucas as etnografias disponíveis que investigam a China contemporânea em diálogo com os termos propriamente chineses. Neste sentido, o curso pretende ser uma porta de entrada para pesquisas em andamento no PPGAS/USP, acompanhando o argumento de Feutchwang e Bruckermann (2016) de que pensar a China permite criações e críticas inéditas para Antropologia – apostando que o encontro desta com a Sinologia também é oportuno para pós-graduandos da FFLCH/USP como um todo. Ademais, em consonância com os interesses do projeto temático Artes e semânticas da criação e da memória (Fapesp, processo n. 2020/ 07886-8), tal disciplina se liga a problemas importantes para a antropologia em geral e para o projeto temático em particular, tais como: o problema da criação na arte chinesa; a noção de família expandida na China; civilização e memória nas manifestações culturais diaspóricas; as relações entre parentesco e socialidade como criação; o estatuto da relação entre natureza/cultura e entre humanidade/animalidade nos cosmos chinês.

Este curso pretende aproximar Antropologia e Sinologia desde uma perspectiva etnográfica, investigando, a partir de pesquisas contemporâneas acerca da China e suas diásporas, possíveis ressonâncias entre esses campos. Partindo da hipótese de que quaisquer pesquisas sobre a China se beneficiam de uma incursão no longevo campo de estudos da civilização chinesa, o curso tem como objetivo fornecer uma compreensão da Sinologia enquanto disciplina a partir de uma crítica antropológica, fomentada pelas potencialidades da China como campo etnográfico ainda pouco explorado (seguindo o argumento de Feutchwang e Bruckermann, 2016). Para isso, o curso prevê três grandes temas, que serão organizados e subdivididos conforme o planejamento a ser construído com os estudantes, a depender de seus interesses e pesquisas. Primeiro, apresentaremos a noção de cultura chinesa como zhonghua wenhua, o que nos permitirá enfrentar o que Simon Leys (2005) nomeia como o “culturalismo chinês”, que foi maturado ao longo das dinastias e constituirá o cerne da cultura letrada – porta de entrada tanto para pensarmos a sinologia como decorrente do encontro colonial com a Europa do século XVII, quanto para acessarmos as elaborações próprias sobre arte e filosofia na China. Caminhamos então para uma segunda exploração, cujo interesse é conectar a Sinologia à “saga da Antropologia na China” (Guldin, 2015), acompanhando as primeiras etnografias produzidas no início do século XX e as transformações políticas que a partir daí condicionam as possibilidades de produção antropológica desde o território chinês. O terceiro tema, que corta transversalmente o curso, é conhecer e aproximar a produção da “Nova Sinologia” às etnografias contemporâneas, com destaque para as recentes produções em língua portuguesa.

Docente Responsável:

Profª. Dra. Ana Cláudia Duarte Rocha Marques
Ministrantes:
Dra. Juliana Pereira Lima Caruso e Dra. Aline Lopes Murillo

Carga Horária:45h
Créditos:3

Os estudos de parentesco na Antropologia aportam questões importantes para a disciplina, assim como contribuem com as reflexões oriundas de diversas áreas. Não é de hoje que parentesco fornece problemas centrais de pesquisa, já que esta área está entre os primeiros interesses da disciplina, aparecendo em obras centrais ainda no século XIX. Pode-se dizer que alguns temas dos estudos de parentesco permanecem em debate até hoje, em suas diferentes formas e atualizações, oferecendo perguntas e discussões cruciais que, por vezes, extravasam os limites da academia. São temas que envolvem família, parentalidades, memórias familiares e genealógicas, questões de filiação, de residência, o incesto e as diversas formas e possibilidades de relações que se configuram na espiral relacional dos parentescos. Além da atualidade dos debates em torno das questões de parentesco, conhecer suas abordagens e discussões possibilita também refletir sobre Teoria Antropológica. Propomos olhar para o parentesco por três caminhos através de três módulos que se entrecruzam: um primeiro momento que vai do início dos estudos de parentesco, passando pelo método genealógico até a teoria da aliança e a proibição do incesto; o segundo, apresentando um dos desdobramentos deste primeiro, que são os programas computacionais, sua atualidade e diversos usos; e, finalmente, o desdobramento dos rompimentos e das críticas tecidas aos autores e teorias da primeira das primeiras abordagens dos estudos de parentesco. Neste último ponto, falaremos do desenvolvimento dos “novos estudos de parentesco”, com enfoque em adoção, memória, governança reprodutiva e genética.

Introduzir noções e debates caros aos estudos de parentesco na antropologia, possibilitando um primeiro contato com o tema, é o objetivo central desta disciplina. Trata-se, sobretudo, de oferecer um panorama que permita o desenvolvimento e a autonomia de estudantes e pesquisadoras que pretendem iniciar um diálogo com os temas dos parentescos. Almejamos apresentar as principais abordagens e perspectivas dos campos dos estudos do parentesco, focando em caminhos teóricos do parentesco na Antropologia. Além disso, buscaremos trazer algumas das reflexões para a experimentação, através de exercícios e práticas de análise e sistematização.

Docente Responsável:

Profª. Dra. Sylvia Caiuby Novaes
Ministrante: Dr. João Kelmer Caldeira de Andrada

Carga Horária:120h
Créditos:8

O que acontece com a antropologia e seu objeto quando o passado, o presente e o futuro deixam de ser pano de fundo e passam ao centro das análises? Este curso busca responder a essa pergunta propondo um panorama das questões que emergem quando a antropologia faz do tempo um objeto explícito de reflexão, tanto como dimensão das ferramentas analíticas da disciplina quanto como aspecto constitutivo dos mundos vividos que ela toma por objeto. Concentrando-se sobretudo na literatura produzida a partir dos anos 1980, e com base em exemplos etnográficos que vão do Pacífico à Amazônia, da China ao Sudeste Asiático, o objetivo é delinear um quadro amplo de como noções como historicidade, memória, evento, nostalgia, mudança cultural, agência e relação têm sido mobilizadas (e problematizadas) na antropologia contemporânea a partir de diferentes modelos de tempo. O curso tem, por um lado, um caráter introdutório, voltado a estudantes sem familiaridade prévia com esses debates; por outro, busca ser também exploratório, convidando os participantes a traçar, em conjunto, um mapeamento dos distintos estilos e das ferramentas que a antropologia lança mão para trazer o tempo ao primeiro plano.

Como observou Nancy Munn (1992) em um texto hoje clássico, a dimensão temporal do objeto da antropologia possui um duplo caráter: por um lado, está em toda parte e, portanto, é inescapável; por outro, justamente por essa ubiquidade, revela-se altamente elusiva e raramente se torna um objeto explícito de análise. Refletir ativamente sobre as maneiras pelas quais a relação entre passado, presente e futuro é construída — tanto por nossos interlocutores quanto em nossos próprios modelos analíticos — é, assim, um exercício altamente produtivo. O curso, nesse sentido, busca oferecer um repertório analítico capaz de dialogar com os mais diversos interesses de pesquisa, ao mesmo tempo em que contribui para consolidar e aprofundar a formação teórica dos alunos.

Docente Responsável:

Profª. Dra. Rose Satiko Gitirana Hikiji
Ministrante: Dr. Rafael Branquinho Abdala Norberto

Carga Horária:120h
Créditos:8

Apresentar o campo de estudos da etnomusicologia, com ênfase em abordagens antropológicas de universos musicais, destacando desde trabalhos fundantes da área até discussões mais recentes que problematizam a pesquisa a partir de perspectivas não eurocêntricas.

Discutir pressupostos e paradigmas fundantes da Etnomusicologia / Antropologia da Música, bem como suas transformações; apresentar propostas epistemológicas e etnográficas, a partir de escutas, leitura de monografias, ensaios e artigos, bem como análises de produções audiovisuais sobre práticas musicais em diferentes contextos. Enfatizar discussões envolvendo os paradigmas da Etnomusicologia Negra, da afrocentricidade e do pensamento Afrodiaspórico nos estudos em/sobre Música no Brasil.

Docente Responsável:

Profª. Dra. Marina Vanzolini Figueiredo

Carga Horária:120h
Créditos:8

O objetivo do curso é testar a produtividade e os limites da noção psicanalítica de trauma para pensar certas experiências indígenas ligadas ao colonialismo, entendido como um processo contínuo e multifacetado com diversas e profundas consequências para os povos a ele submetidos. Interessa-nos especialmente pensar experiências que vem sendo entendidas, na perspectiva do Estado e muitas vezes dos próprios coletivos indígenas, como questões de “saúde mental”; é parte de nossa aposta, a ser investigada e desenvolvida ao longo do curso, a ideia de que tais experiências estão direta ou indiretamente ligadas ao processo colonial.

Se muitas das pesquisas desenvolvidas na etiologia indígena ocorrem em comunidades marcadas por problemas como altos índices de suicídio, alcoolismo ou violência doméstica ligada ao uso abusivo de drogas, o investimento analítico sobre essas experiências tem se dado muito mais nos campos da saúde (inclusive da psicanálise) do que na antropologia. Com este curso desejamos tomar essas questões como matéria de reflexão antropológica, entendendo que o que está em jogo não é apenas um campo de pensamento, mas também ou essencialmente um campo de ação. Tomamos este com um caminho possível para responder à demanda cada vez maior, por parte de nossos interlocutores indígenas, por uma antropologia implicada.